Vamos começar falando sobre o famoso “Cântico dos Cânticos”, já que esse é o primeiro texto que vamos analisar desse livro.

A autoria é atribuída a Salomão.

O tempo: quase mil anos antes de Cristo.

O tema central do livro é a sabedoria, como diz o professor Luiz Sayão: é uma literatura sapiencial que glorifica o amor através de uma poesia romântica e sensual entre um homem e uma mulher, Salomão e Sulamita.

No contexto temos o casamento, e mais especificamente as intimidades do casal.

O fato de haver na Bíblia um livro inteiro dedicado a esse assunto mostra que a sexualidade foi criada por Deus e é vista como algo natural, além de bonito, especial e importante.

Sabemos que a Palavra fala da realidade humana como ela se apresenta, inclusive quanto ao relacionamento sexual entre homem e mulher.

Então, se existe algum tabu em relação ao sexo, isso foi criado pelo próprio ser humano.

Agora vamos falar sobre algumas palavras usadas pelo escritor e que soam bem estranhas nos dias de hoje.

Salomão e Sulamita disparam vários elogios um ao outro.

Enquanto ela se compara a uma flor de Sarom ou um lírio dos vales (2.

1), Salomão diz que ela é como uma “égua das carruagens de Faraó” (1.

9).

Ela diz que ele é como uma gazela ou um cervo novo (2.

9) e ele diz que ela é uma pomba (6.

9), que o seu cabelo é como um rebanho de cabras (4.

1) e o seu pescoço como a torre de Davi (4.

4).

As expressões românticas daquela época eram bem diferentes das nossas.

Imagine dizer algo assim para o seu amado ou sua amada.

Mas nós também dizemos coisas que são bem estranhas para outras culturas.

Por exemplo: meu chuchuzinho, cara metade, minha gata, meu anjo, meu bebê, docinho, princesa, e por aí vai.

Agora deixando de lado as questões culturais, vamos falar sobre a literalidade de Cantares.

Muita gente prefere interpretar o livro de forma alegórica, afirmando que a história de Salomão e Sulamina tipificam Cristo e a Igreja.

Compreender o texto “somente” através da alegoria é bem complicado, e percebemos isso quando nos aprofundamos em alguns termos mais específicos.

É bom observar que nem tudo é sobre Cristo e a Igreja.

Mas, vamos voltar ao nosso tema do estudo de hoje, que está em Cânticos 7.

2:“Seu umbigo é uma taça redonda onde nunca falta o vinho de boa mistura.

Sua cintura é um monte de trigo cercado de lírios.

” (Cânticos 7.

2) NVISegundo Luiz Sayão, todo o contexto é de “intimidade descrita de maneira metafórica” e a “celebração é feita de acordo com o pensamento bíblico”.

Muitas pessoas estranham esse aspecto e buscam outras referências.

“Toda a realidade do mundo hebraico antigo consiste em trigo [pão], azeite e vinho, com ideia de abundância, prazer e tudo o que tem a ver com satisfação”, explicou.

O professor faz um alerta: “Muitas pessoas leem com uma mentalidade grega e tentam encontrar outro sentido que estaria ligado ao texto.

Isso porque o sentido imediato parece difícil para elas.

” Por mais estranho que possa parecer, Salomão, por diversas vezes, relacionou os traços físicos de sua mulher com a gastronomia daquela época.

O formato do umbigo, por exemplo, se tornou uma taça de vinho para ele e a cintura como um monte de trigo cercado de lírios.

Alguns estudiosos entendem que, nesse contexto, a libanesa poderia estar dançando para ele, daí entendem que a citação do trigo seria mais compreensível se estivesse em movimento – como se a cintura dela se movesse, como se move o trigo ao vento.

Já os lírios poderiam ser explicados como um cinto ou grinalda de flores em sua cintura, segurando uma saia de véu, roupa típica da dança do ventre.

Mas Sayão afirma que não é o caso, porque o Líbano antigo era bem diferente.

“Atualmente, a cultura libanesa tem influência árabe, mas o Líbano daquela época era a antiga Fenícia que tinha conexão com o hebraico”, disse.

Logo, chegamos à conclusão de que a dança do ventre sequer existia naquela época.

“Não tem nada a ver com o jeito de ser hebraico.

É um desenvolvimento árabe posterior”, reforçou.

Não há como interpretar o texto para saber exatamente o que Salomão quis dizer.

O que podemos é usar a própria Bíblia para chegar um pouco mais perto do sentido original dessa passagem.

Vinho de boa mistura – símbolo de prazer, satisfação.

Embriagar-se do amor verdadeiro.

“O banquete é feito para divertir, e o vinho torna a vida alegre…” (Eclesiastes 10.

19)“…a sua boca como o melhor vinho… vinho que flui suavemente para o meu amado, escorrendo suavemente sobre os lábios de quem já vai adormecendo.

” (Cânticos 7.

9)Trigo – alimento, prosperidade, abundância, fartura e saciedade.

Lírios – perfume agradável, beleza, majestade.

“Vejam como crescem os lírios do campo.

Eles não trabalham nem tecem.

Contudo, eu lhes digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles.

” (Mateus 6.

28-29)“Suas faces são como um jardim de especiarias que exalam perfume.

Seus lábios são como lírios que destilam mirra.

” (Cânticos 5.

13)Veja também alguns comentários, encontrados no livro “Eclesiastes e Cantares” da Série Cultura Bíblica (Editora Vida Nova, pgs.

315, 316)A palavra “umbigo” ocorre apenas três vezes no Velho Testamento, mas não em todas as versões da Bíblia (Provérbios 3.

8 / Ezequiel 16.

4 / Cantares 7.

2), no sentido de mostrar “o centro do corpo”.

O termo “vinho misturado” seria diluído com especiarias e mel, para torná-lo ainda mais forte.

Sobre a “cintura”, o autor esclarece que não tem a ver com o baixo ventre (abaixo do umbigo) ou útero, no sentido de fertilidade ou gravidez.

Cintura no hebraico é “beten”, diferente de baixo ventre que é “me’eh”.

Perceba que as duas palavras hebraicas são diferentes.

Sendo assim, concluímos que Salomão falou mesmo da cintura.

Resumindo, as comparações do umbigo a uma taça de vinho e a cintura como um monte de trigo, nos remetem para os seguintes resultados metafóricos: a fome e a sede são saciadas, o prazer é obtido, o amor é alimentado e o relacionamento entre eles é pleno e cheio de prazer.

O que passar disso é pura suposição.

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