Número de casos de covid-19 cresce rapidamente no país sul-americano.

Especialistas alertam para falta de leitos de UTI, governo reage e os mais afetados gritam: 'Se o vírus não nos matar, nos matará a fome'.

Equipes médicas transferem pacientes com Covid-19 para serem transportados de uma base da Força Aérea do Chile para a cidade de Concepcion na terça-feira (19).

Objetivo é liberar espaço nas unidades de terapia intensiva dos hospitais da capital, em Santiago Esteban Felix/AP A propagação do coronavírus continua quebrando recordes no Chile: nesta segunda-feira (25), foram registrados 4.895 casos em 24 horas, atingindo um total de 73.997 infectados, com 43 novas mortes relatadas, o que eleva a contagem para 761 mortos. O presidente do Chile, Sebastián Piñera, reconheceu no sábado (23) que "é verdade que o coronavírus levou o sistema de saúde chileno a muito perto do seu limite, com UTIs 85% ocupadas", e hospitais trabalhando no máximo de sua capacidade.

Piñera também disse que "ouvi ontem de alguns especialistas que o sistema de saúde está em grande demanda, muito estressado". Um alerta oficial fora emitido 15 dias antes por um dos médicos intensivistas mais renomados do Chile.

Em 8 de maio, Alejandro Bruhn Cruz, chefe do Departamento de Medicina Intensiva da Universidade Católica, alertou publicamente que "o sistema de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) poderia entrar em colapso nas próximas duas semanas".

Naquele momento, Bruhn dissera que a capacidade pública de receber pacientes em UTIs já estava "prestes a atingir seu limite." Segundo Alejandro Bruhn, também presidente do Comitê de Ventilação Mecânica, "a situação preocupante se concentra na Região Metropolitana [de Santiago], particularmente na rede pública, onde muitas instalações de saúde já chegaram quase ao limite da capacidade de receber pacientes de UTI.

E os outros hospitais estão acima de 80%." Bruhn, especialista da Universidade Livre de Bruxelas, alertou muito cedo que "se o aumento de pacientes que necessitam respiração mecânica persistir para além de duas ou três semanas, enfrentaremos uma situação de risco de colapso no sistema nacional de cuidados intensivos" ‒ exatamente o que está acontecendo hoje. Sepulturas recém-escavadas no Cemitério Geral em meio à nova pandemia de coronavírus em Santiago, no Chile, na sexta-feira (15) Mauro Medel/AP Mañalich: "A curva permanece" Jaime Mañalich, ministro da Saúde do Chile, comentou em 25 de maio no site Periscope que "quando vemos a situação epidemiológica dos falecidos, a curva foi mantida: idosos com doenças crônicas".

Isso foi dito no contexto de uma coletiva de imprensa para anunciar a chegada de 60 novos respiradores comprados da China com dinheiro "doado" pela indústria privada. Mañalich também prometeu "converter 400 leitos para o atendimento de pacientes gravemente enfermos".

Isso significa que esse número de leitos para pacientes com outras doenças será reservado para os casos de covid-19.

Até o momento da redação deste artigo, o número de internados em UTIs no Chile era de 1.135, dos quais 989 recebem respiração mecânica e 220 permanecem em estado crítico, segundo o Ministério da Saúde do país. Atualmente, não está claro se os leitos do sistema público chileno foram levados pelo sistema privado ou alugados a ele.

A gerente-geral das Clínicas do Chile (associação do setor privado de saúde), Ana María Albornoz, disse à emissora CNN Chile que "336 leitos de UTI foram incorporados à rede de saúde".

A DW procurou entrar em contato com os executivos das Clínicas do Chile para esclarecer se não foi gerado um desequilíbrio entre interesses públicos e privados, mas ainda não recebeu resposta. Trabalhadores municipais higienizam casas de migrantes haitianos em bairro de baixa renda em Santiago, no Chile, em 16 de maio Martin Bernetti / AFP Santiago é o epicentro da pandemia A capital chilena ‒ com 8 milhões de habitantes e em quarentena absoluta pela segunda semana consecutiva ‒ é o principal foco da pandemia no país.

Santiago adentrou a última semana de maio com 94% de seus leitos de UTIs ocupados.

O governo tentou descongestionar seus hospitais transferindo cerca de vinte pacientes para outras cidades por helicóptero e avião militar. No Chile, um país com 18 milhões de habitantes, existem cerca de 38 mil leitos hospitalares, e um acréscimo de pelo menos mais 4 mil está em planejamento.

Para tal, as autoridades sanitárias anunciaram a instalação de cinco hospitais de campanha e ordenaram que clínicas particulares aumentassem sua capacidade em mais de 600 leitos adicionais até 15 de junho. Menos leitos, mais fome Mas no Chile, como em outros países da América Latina, a quarentena atingiu especialmente os mais pobres, aqueles que só podiam comer, porque saíam para trabalhar nas ruas todos os dias ou todas as noites.

Enquanto restam cada vez menos leitos no Chile, a fome aumentou entre as famílias.

E com a fome, o descontentamento. Manifestantes queimam pneus em uma barricada enquanto protestam para solicitar alimentos do governo durante quarentena geral em meio à disseminação da doença por coronavírus (Covid-19) no bairro 'Puente Alto' em Santiago, no Chile, nesta segunda (25) Ivan Alvarado/Reuters "Prefiro morrer de covid-19 a morrer de fome" ou "Se o vírus não nos matar, nos matará a fome", bradaram na segunda-feira manifestantes em Santiago que ergueram barricadas com pneus e lixo para obstruir o tráfego, enquanto outros batiam em caçarolas.

"Não podemos nos calar como Oriente (a área mais rica de Santiago); eles têm seus refrigeradores cheios, seus freezers com carne, enquanto nós não sabemos o que vamos comer amanhã", disse uma mulher à emissora local 24 horas. Segundo as autoridades, "desde 22 de maio, 2,5 milhões de pacotes de mantimentos foram distribuídos e está sendo entregue um bônus de assistência familiar de até 420 dólares (cerca de 2,5 mil reais), que beneficiará 4,9 milhões de pessoas." Vida ou morte: uma questão de ciência, gestão e dignidade No Chile, o dilema de quem deve ser salvo ou quem não se torna cada vez mais uma realidade.

Num documento sobre "Diretrizes éticas no atendimento a pacientes em situação de pandemia", Ignacio Sánchez, membro da Mesa Social Covid-19 [fórum governamental que reúne especialistas da área de saúde, de municípios e acadêmicos], alerta que 'apresentou-se o problema da escassez de recursos, chamado de 'dilema do último leito', o que não deve levar a uma confusão, pois a alocação de recursos deve ser feita de acordo com prioridades clínicas objetivas, de acordo com a avaliação de especialistas, com a situação atual e com o prognóstico de recuperação de cada paciente." Uma decisão que, segundo Sánchez, também deve ser tomada "após consulta aos comitês de ética".

No Chile, segundo o documento, "os fatores de risco do paciente devem ser levados em consideração: doenças crônicas subjacentes, idade e prognóstico de recuperação." Mas a Mesa Social Covid-19 também enfatiza que "por mais que nos preocupemos com quem usará o 'último leito', devemos nos preocupar com quem não o ocupará", assinalando "que nos casos de pacientes em condições graves, doenças subjacentes e doentes terminais, indicações como medidas paliativas abrangentes e acompanhamento psicológico e espiritual são fundamentais na provável e esperada evolução clínica rumo a uma morte digna e na companhia de seus familiares e entes queridos."